Ainda faltam dois dias para 2011 chegar ao fim, mas acredito que já posso fazer um balanço deste ano, que no mais pode ser resumido em uma palavra: intenso. Ele não foi marcado por meias emoções, pelo contrário, tristeza, alegria, indignação, empolgação, decepção, esperança. Todas vieram com uma carga tão forte que quase não couberam no espaço deste ano.
O início foi marcado por dúvidas e um sentimento de mesmice...parecia tudo calmo e em seu lugar. A rotina seguia e ao que tudo indicava seria um ano sem grandes mudanças. Mas que engano! Que engano! "Tudo que é sólido desmancha no ar." como já dizia o velho Marx.
Esse ano foi marcado por rupturas, ele exigiu coragem. Nem sempre é fácil sair da zona de conforto, mas é necessário ter firmeza para fazê-lo para não transformar a vida em uma grande frustração. Mas a tal da coragem só parece vir mesmo depois de algum evento muito marcante, que te faz repensar a vida. E é num momento de perda onde mais fazemos isso. Perder alguém é algo muito doloroso, saber que aquela pessoa não estará mais presente fisicamente na sua vida, que você nunca mais ouvirá a sua voz a não ser na memória. Não é fácil lidar com algo assim, imaginar que alguém deixa de existir e que com ela vai embora também toda uma experiência de vida, toda uma história...é um fato que não tem como não mudar a vida dos que ficam. É aí que percebemos que perder tempo pode ser fatal. Por isso resolvi romper laços, que do jeito que estavam, haviam perdido muito do seu sentido. Decidi que agora era hora de viver o que ainda não tinha vivido, conhecer, experimentar, ressignificar a minha própria existência. Dar vazão a um outro eu. Mais do que nunca percebi o quanto a vida nos chama a ter posicionamento frente a ela.
Falando nisso, posso definir assim também o meu ano na USP. De cara o trabalho de campo em Ouro Preto que finalmente me fez sentir na prática o meu papel de historiador, e só reafirmou a minha crença de que o melhor jeito de construir as coisas é coletivamente. Nessa viagem e logo após ela eu pude ter a experiência em grupo mais gratificante da minha vida. Tudo funciona quando as pessoas entendem o significado de "coletivo". Mas obviamente 2011 não foi o meu ano de USP mais intenso só por causa disso. Na verdade o divisor de águas foi o dia 27 de outubro, uma quinta-feira. Nunca vi tanta violência em potencial junta num mesmo lugar, a arbitrariedade sendo esfregada na cara das pessoas de forma tão explícita. Impossível ficar indiferente após bombas explodirem ao seu lado e sentir que o gás lacrimogênio está te ressecando por dentro. Sentir a sua integridade física senso ultrajada é uma das piores sensações que já tive na vida. Mas claro, toda ação tem uma reação, e esta fez com que o restante dos meus meses fossem marcados pelas palavras de ordem: FORA PM! FORA RODAS! Era o movimento político me tragando sem dó nem piedade. Já não era sem tempo. E em meio a tudo isso convicções se reafirmaram e fortaleceram, novos laços se criaram, e é incrível como esses vínculos que se criam à partir da luta são fortes! É um tipo de experiência quase impossível de mensurar em palavras. Pois enfim, esse foi um ano de muito aprendizado.
Por fim 2012 já bate a porta. Há tempos não entrava um ano tão otimista e certo de que os planos estão bem engatilhados e prontos pra acontecerem! Ao mesmo tempo com a certeza de que será um ano que exigirá muito, será um ano de luta! Parafraseando Mafalda: "Nós sempre esperamos que o ano novo seja melhor, mas no fundo somos nós que precisamos ser melhores no ano que chega."
No mais, agradeço aos que em 2011 fizeram a diferença na minha vida. E não preciso citar nomes, eles sabem quem são. :)
Que venha 2012 e vamos à luta!
sexta-feira, 16 de dezembro de 2011
quinta-feira, 13 de outubro de 2011
Ruptura e Continuidade

Do meio do desânimo e de um dia cinza e chuvoso uma banalidade, algo que estava na minha cara esse tempo todo me fez ter vontade de escrever. Esse algo me fez pensar sobre as continuidades da vida, aquelas coisas que nos acompanhem por anos, talvez até pela vida toda, e nem nos damos conta.
Ao meu ver pensamos tão pouco nas continuidades por darmos tanta ênfase às rupturas. Os ritos de passagem, as transições de um momento da vida para o outro são o que marcam e o que mais são valorizados. Passar no vestibular, fazer o TCC, se graduar, ir para o mestrado, doutorado, se casar, ter filhos, ser bem sucedido, depois ser mais bem sucedido e depois ser ainda mais bem sucedido. É isso o que esperam de nós. Mas e todo tempo, pessoas e momentos que existem aí no meio? Ninguém se importa muito com isso, e muitas vezes deixamos passar. Talvez isso seja reflexo da sociedade de consumo, que reifica o novo a todo instante, e nos obriga a uma constante ruptura, como se o passado de nada valesse e só o agora tivesse valor. Seja um carro novo, uma roupa nova, um amigo novo ou um sentimento novo, não importa, tudo faz parte do mesmo mercado, tudo ganha status de mercadoria.
Mas e a continuidade? Bom, é nela onde a vida acontece, basicamente. No meio de tanta ruptura, é nas continuidades que nos formamos com o passar do tempo, e é nela que resistimos a tanto "presentismo". Li em algum lugar que na verdade nós somos todas as idades que já tivemos sobrepostas umas as outras, e hoje vi isso claramente. Por mais que queiram fazer parecer o contrário, muitas das nossas atitudes da vida adulta são condicionadas por coisas que aprendemos ou momentos que vivenciamos na infância e na adolescência. Por mais que eles queiram que sejamos uma enorme tábula rasa para receber de bom grado todas as novidades do mercado dia após dia, mesmo que queiram nos encaixar no "nicho de mercado mais adequado", nós não devemos aceitar! Somos pessoas! E são as nossas continuidades...lembranças, momentos e pessoas que nos fazem sê-lo! Continuar amigo do pessoal do colégio enquanto gente nova vai chegando, usar a camiseta da sua banda preferida aos 16 quando você já tem 22, ter em meio aos cabelos castanhos de sempre vários fios brancos...continuidade é saber agregar o novo sem abrir mão do passado. É se reinventar sem perder as referências. Continuidade, no fim das contas, é resistência.
Se você leu até aqui deve estar se perguntando: "Mas o que fez você pensar tudo isso?", quer saber? Foi a fonte azul que uso no meu MSN! Me dei conta de que uso a mesma fonte azul desde a época do ICQ, igualzinha...lá se vão uns 10 anos, pelo menos. Mudam-se os meios (ICQ -> MSN) mas mantem-se a forma (letras azuis). Ruptura e continuidade.
segunda-feira, 5 de setembro de 2011
E O AMANHÃ JÁ É!

O maior sinal de que é hora de escrever é quando bate a inquietação. E essa é uma boa inquietação, advinda de coisas que fazem o coração pulsar mais forte, as esperanças se renovarem e a ansiedade tomar conta. É a hora em que você percebe que sim, é possível! E melhor ainda, tem muita, mas muita gente mesmo acreditando nisso!
Vejo muitas pessoas até agora dizendo que só nos resta a nostalgia de um passado que não vivemos. Pessoas de olhar raso! Míopes! A transformação está acontecendo logo ao lado, é só ter a boa vontade de ver! Os estudantes chilenos protagonizando as maiores manifestações desde a ditadura de Pinochet, lutando justamente para varrer do Chile a herança maldita deixada pelo ditador, em nome de uma Educação pública, gratuita e de qualidade para todos! O mundo árabe, mundo este tão estigmatizado desde o 11 de setembro de 2001 como um lugar de "terroristas islâmicos fundamentalistas", está aí depois de uma década, desde o início de 2011, dando uma lição de democracia e mobilização popular ao mundo! Exigindo liberdade acima de tudo, se insurgindo contra regimes ditatoriais de décadas: Tunísia, Egito, Síria, Líbia(essa com vários poréns, mas que não cabem serem discutidos aqui) protagonizam com maestria a chamada "primavera árabe". Na Europa a juventude vai às ruas protestar contra as políticas neoliberais de seus governos, que tentando salvar o grande capital da crise, empurra cada vez mais a sua população para um futuro sem perspectivas. Grécia, França e os 'indignados" na Espanha mostram que o espírito crítico continua vivo na maior parte da juventude desses países, exigindo seus direitos e deixando bem claro, como diz no programa do 15-M (grupo surgido das manifestações na Espanha, os assim intitulados pela mídia "indignados") "não somos mercadoria". E tudo isso em meio a uma das maiores, senão a maior, crise pela qual o capitalismo já passou, principalmente o seu eixo central, os EUA, que se encontram hoje a beira do abismo. E não nos esqueçamos das lutas no Brasil, tanto dos movimentos sociais como o Passe Livre, que agora luta pela Tarifa Zero no transporte público, como o MST, que conseguiu colocar a Reforma Agrária de novo em pauta, e também o Movimento Estudantil que tantas lutas vêm travando em inúmeras universidades pelo país. Não tenho dúvidas de que vivemos um novo tempo histórico. Um tempo de lutas e perspectivas renovadas. É claro que ainda estamos no começo, mas está muito claro que o novo está nascendo, apesar de ainda não termos nome para ele.
Sendo assim, preciso falar de onde veio a inspiração para esse post. Ela veio de um outro campo de luta, o campo cultural, mas que nesse caso, felizmente, também não deixa de ser um campo político. Ela veio da nova música da trupe d´O Teatro Mágico, "Amanhã...Será?". Sem dúvida alguma eles são um grande exemplo de como o artista deve se portar frente à sociedade, não se furtando de falar o que tem que falar, fazendo aquilo que essa sociedade espera dele, mesmo que ela não tenha consciência disso. Essa trupe renova dia-a-dia a minha crença de que a Arte engajada é também um instrumento fundamental para a transformação do mundo. Eles são um exemplo do quanto vale a pena seguir fiel aos seus ideais e provar que sim, é possível fazer diferente! Hoje eles lançam o seu novo álbum "A Sociedade do Espetáculo", contando apenas com eles próprios, os fãs e as mídias digitais para a sua divulgação, continuando na luta pela arte independente e pela música livre, já que a velha mídia considera o discurso deles "radical demais" para os seus fins mercadológicos. Pouco importa, eles não precisam dela. Nem nós precisamos. Temos a Internet e as redes sociais que nos possibilitam novos conteúdos, novas abordagens, novos meios de nos organizarmos. E é justamente ela que desempenha papel central nesse "novo" que vai nascendo e junta uma ponta a outra, já que da luta pela música livre até as revoluções árabes, ela está presente, e tendo um papel preponderante. Por isso é fundamental que continuamos na luta para que essa continue sendo uma mídia verdadeiramente livre!
Por fim uma última coisa: a nova música da trupe pergunta se "amanhã...será?" e eu me atrevo a responder: O amanhã não será...O AMANHÃ JÁ É!
Deixo vocês agora com o belo clipe da música "Amanhã...Será?":
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domingo, 31 de julho de 2011
Nostalgia e Saudade

Essas férias de julho foram marcantes pra mim por diversos motivos, mas principalmente pela nostalgia que senti desde o primeiro dia em Avaré. Esse sentimento sempre acaba vindo de um jeito ou de outro quando venho pra cá, já que aqui está a minha origem e a maior parte das minhas lembranças. Mas esse mês em especial isso foi mais forte, pois vi muita gente que há tempos não via, falei com várias pessoas que há muito tempo não falava. E percebi como é bom relembrar o que passou e perceber que existiram na minha vida tantos momentos bonitos, que valeram a pena ser vividos. E de como é reconfortante ter esse sentimento de gratidão com o passado. O mais importante é que compreendi como é crucial termos essa nostalgia, mas ao mesmo tempo ter plena consciência de que esse tempo não volta mais. Querer reviver o passado é o caminho da melancolia. O essencial é termos a consciência de que o importante é vivermos o hoje, construindo o mundo no nosso tempo, onde temos vez e voz.
E hoje, especialmente, foi um dia de relembrar muita coisa, já que uma pessoa muito especial nos deixou. Quantas lembranças bonitas eu tenho da minha avó, tantas memórias da minha infância, de todo tempo que passei na casa dela, e daquelas coisas que só na casa da avó a gente tem: O baleiro, o refrigerante de garrafa de vidro, as rosquinhas e os bolinhos de chuva. Sem falar nas brincadeiras no quintal e das polentas e macarronadas de domingo. E como esquecer das conversas sobre as coisas da vida e do passado? Tudo isso estará guardado comigo pra sempre, com todo carinho do mundo. Apesar da dor e da tristeza eu me sinto muito agradecido por ela ter feito parte da minha vida, sinto uma enorme gratidão por todo esse tempo de convivência. Vai ser muito difícil passar em frente a casa dela agora e não ver a janelinha da porta aberta. Mas de qualquer maneira ela estará comigo pra sempre, pois eu acredito que sempre levamos as pessoas que passam na nossa vida com a gente, seja num gesto, num olhar, em uma lembrança, no sangue. Como acredito que no fim todos voltamos a ser poeira estelar, sempre olharei para as estrelas quando a saudade bater.
No fim vou me lembrar sempre da última conversa que tivemos. Comentei como a samambaia que ela tinha na sala a tanto tempo continuava lá, firme e ainda brotando. Talvez seja uma metáfora da vida, que apesar das dificuldades, do tempo e das podas, continua lá, brotando e começando sempre de novo.
No mais, ficam as saudades.
segunda-feira, 23 de maio de 2011
Entre Passado e Futuro
Era manhã em Ouro Preto quando José chegou à cidade. Ele vinha de São Paulo, da cidade grande, e era a sua primeira vez ali, naquela suntuosa localidade no interior de Minas Gerais. Muito já tinha ouvido sobre aquele lugar, afinal de contas, sempre foi apaixonado por História, principalmente a do Brasil. A sua primeira reação ao ver todas aquelas construções de época não poderia ter sido outra: Ficou maravilhado! “De fato viajei no tempo e voltei para o século XVIII!” pensou.
Tudo corria bem na sua visita: As igrejas barrocas eram lindas, as esculturas em pedra sabão de Aleijadinho eram maravilhosas, o monumento à Tiradentes era fabuloso, e se isso não bastasse, a comida era fenomenal! E claro, ele adorava aquela multidão toda que era comum na cidade nessa época do ano, era Semana Santa. Não havia nada de errado naquele seu paraíso nostálgico, até que algo inesperado aconteceu. Enquanto atravessava a Rua Direita, próxima ao Museu da Inconfidência, uma caminhonete gigantesca surgiu em alta velocidade e por pouco não deu à José o mesmo destino do inconfidente mais famoso. Após o susto, quando retornou a si, José teve uma epifania: “Como isso é possível!? De uma rua tão estreita, feita para carroças e carruagens circularem, sair esse veículo tão monstruoso? Isso não está certo! É anacronismo!”. A sensação dele naquele instante era como se a Revolução Industrial tivesse passado como um rolo compressor em cima da sua setecentista Ouro Preto.
Desde então alguma coisa mudou na percepção de José quanto à cidade. Ele se lembrou de que estava no século XXI, e passou a compreender como passado e presente se mostravam tão conflitantes naquele espaço. Ele começou a notar como as belas casas do século XVIII só o eram assim por fora, mas por dentro não havia nada de diferente do que já vira em sua própria cidade. Se deu conta de como os museus, mesmo o de Aleijadinho, nada mais eram do que um amontoado de obras sem maiores cuidados, e se deu conta de como era absurda aquela situação do trânsito, carros se amontoando em ruas estreitas que não foram feitas para carros. José refletiu sobre aquilo: “Talvez morar aqui não seja a coisa mais agradável do mundo como eu pensava.”. Na dúvida perguntou a um senhor que ia passando como era morar em Ouro Preto, e este sem demora respondeu: “Olha meu filho, eu sempre achei a minha cidade muito bonita, principalmente as igrejas. Mas não é nada fácil viver aqui. O sossego é raro devido aos turistas que vêm e vão, essas ladeiras tiram o humor de qualquer um, e pior, para arrumar uma goteira que seja na minha casa eu preciso pedir autorização em cima de autorização, tudo por causa desse tal negócio aí de “patrimônio histórico”. É meu jovem, a vida aqui não é tão bonita o quanto parece...”. Depois dessas palavras José passou a olhar o seu antes paraíso nostálgico com uma grande desconfiança: “Estou dentro de um grande e petrificado parque temático, isso sim!”. E assim continuou pensando, enquanto se aproximava o fim da viagem.
José teria voltado frustrado para São Paulo não fosse o que presenciou na etapa final de sua viagem. No sábado à noite ele desceu até a igreja de Nossa Senhora da Conceição para acompanhar a fabricação do tapete para a procissão de Páscoa no dia seguinte. Na verdade ele nem sabia ao certo do que se tratava o tal tapete, foi até lá movido basicamente pela curiosidade. Ao chegar à igreja a sua primeira surpresa: Uma multidão trabalhava no tapete! Homens, mulheres, adultos e até crianças! Ele ficou encantado ao ver a obra de arte coletiva que surgia aos poucos através da serragem colorida. Enquanto vislumbrava aquele espetáculo, ouviu uma voz indagando: “Ei jovem, gostaria de ajudar?”, ele não pensou duas vezes, de súbito colocou as luvas, encheu as mãos de serragem e começou a trabalhar. Se já não bastasse a sua alegria naquele momento, ele começou a ouvir uma música vinda de algum lugar próximo. “Carinhoso” era a música que tocava. Ao se levantar para olhar em volta na tentativa de descobrir de onde vinha aquele som, ele se deparou com 3 senhores, um de chapéu e violão que cantava com ares de Adoniran Barbosa, um mais alto com um pandeiro e outro mais baixo com um trompete. Era um grupo de seresta, que faria a trilha sonora do resto da noite.
Ao subir a ladeira em direção à pousada já de madrugada, José só conseguia pensar em como tudo aquilo era sublime, como pela primeira vez viu concretamente o que chamam de comunidade, e como era bonito ver as pessoas se solidarizando e se ajudando em prol de um bem comum, e sem esperarem nada em troca. “Coisa cada vez mais rara nesse mundo.” ele pensou.
No domingo José acompanhou a procissão, e mais uma vez ficou maravilhado com tudo aquilo, da banda marcial que tocava à multidão que lotava as ruas. De fato era a redenção de Ouro Preto aos seus olhos, já que sabia que dificilmente iria ver algo assim em outro lugar.
De noite já no ônibus, voltando para São Paulo, ele só conseguia pensar naqueles acontecimentos dos últimos dias de viagem, e como as suas concepções tinham mudado. Chegou a conclusão de que o grande patrimônio de Ouro Preto não eram os paralelepípedos da rua e nem o barroco das suntuosas igrejas do século XVIII. Que ele nem sequer era material. Na verdade o maior patrimônio daquela cidade era imaterial, estava nas pessoas, que de geração em geração mantiveram a tradição de naquela véspera de Páscoa se reunir para aquele grande feito construído através da colaboração de todos.
José compreendeu enfim que o passado pelo passado de nada vale, que ele só tem valor quando nos ensina algo no presente. Assim como aquelas pessoas de Ouro Preto o tinham ensinado algo novo naquela noite. Enquanto o ônibus se distanciava da cidade o sono aumentava, e pouco antes de José adormecer pareceu ouvir de novo a canção dos seresteiros “Ah se tu soubestes como sou tão carinhoso...”. Adormeceu, mas continuou sonhando com a Ouro Preto que agora carregaria para sempre na memória.
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quarta-feira, 23 de março de 2011
Vivido, Percebido e (Sem) Sentido

Existem certos momentos na vida onde a nossa única vontade é voltar para o quentinho e confortável útero de nossas mães. É tanta indecisão, são tantos sentimentos e pensamentos misturados, e o fato de que não há para onde correr.
A vida é uma sucessão de expectativas e frustrações. Em certos momentos as expectativas tomam todo o nosso tempo, ficamos fantasiando situações, animados e não vendo a hora que elas ocorram. Depois o embate com a realidade vai colocando os nossos pés de volta no chão e a gente vê que aquilo que tanto almejávamos não é bem como imaginamos. Não que tudo sejam frustrações, não se trata disso. É que às vezes é difícil se frustrar com algo que você não esperava se frustrar. Mas no fim "tudo o que é sólido desmancha no ar" como já dizia o velho Marx.
Comecei a pensar sobre isso hoje depois de conversar com algumas pessoas que entraram na faculdade esse ano. Quando menos percebi estava usando um tom de quem teve muito de suas ilusões perdidas com o passar dos anos. Eu nunca pensei que isso aconteceria comigo também, mas no fim parece que a academia é mesmo um ambiente frustrante por definição. Na verdade essa é uma constatação triste, deveria ser o contrário. Mas como não vivemos em um mundo ideal, não é. Conviver com as virtudes é fácil, o problema é quando nos damos conta dos vícios.
O problema disso tudo é que nesses momentos o seu subconsciente faz o favor de te jogar na memória outras tantas frustrações que você teve durante a vida, daí você tenta achar algum sentido para tudo aquilo e acaba a beira de um surto. Pior ainda se você for uma pessoa introvertida como eu, porque aí você surta para dentro, o que é bem pior. A única vontade que tenho é a de ficar sozinho no meu canto. Acho que é por isso que a grande maioria das pessoas vivem sem pensar no que estão vivendo, porque esse momento de perceber o que se está vivendo e tentar interpretá-lo é muito difícil e parece quase sempre sem solução.
Mas enfim, viemos a esse mundo sem querer e ninguém disse que seria fácil. O jeito é ficar entre a loucura e a lucidez e ver onde tudo isso vai dar.
terça-feira, 8 de março de 2011
Vá em paz, Mial! E Obrigado!
Nessa semana fiquei bem chateado com a notícia de que havia falecido em Cuba Alberto Granado, amigo dos anos de adolescência do Che, que na época era apelidado de Fuser, e companheiro do mesmo na viagem pela América Latina à bordo de "La Poderosa", uma moto Norton 500, viagem esta recontada no filme "Diários de Motocicleta" de Walter Salles.
Eu não tenho dúvida alguma de que esse foi um dos filmes que mais me tocou na vida, sem dúvidas depois dele minha sensibilidade para diversas questões mudou, ficou mais aguçada, não acho exagero enxergar nesse filme o início de boa parte do que penso e sou hoje. Além do mais ele é dono de uma das cenas mais bonitas que eu já vi no cinema. No final do filme, o jovem Alberto se despede do amigo Ernesto, vendo desde já o quanto esta viagem modificou algo em seu amigo, o vê entrar e partir em um avião de carga, a câmera acompanha o avião sumindo no horizonte e quando volta para Alberto este já é um senhor de idade, com os olhos marejados em direção ao horizonte, como se este tivesse passado a vida esperando pelo amigo, que de uma viagem eterna nunca mais retornará. É impossível não se emocionar com essa cena.
É inspirador pensar em dois jovens argentinos que saíram de viagem pela América Latina para conhecê-la em sua plenitude, e que no fim se depararam com situações de miséria e injustiça quase insuportáveis que os fez criar uma consciência de que aquilo precisava mudar. Sete anos depois o comandante Ernesto "Che" Guevara entrava triunfante em Havana com suas tropas, o sonho iniciado no fim daquela viagem com seu amigo Mial, agora se concretizava. Era a Revolução.
Uma das primeiras coisas que o Che fez foi chamar o seu amigo Mial, que estava na Venezuela, para ajudar na construção de uma nova sociedade em Cuba, e este atendeu o seu pedido de imediato, tendo papel fundamental no desenvolvimento da Biologia e da Medicina no país. Sem dúvidas ambos tinham uma ligação, uma amizade muito forte e bonita. E assim foi até o fim. Me lembro que nos extras do filme havia uma entrevista com Alberto, onde ele dizia "Sempre que faço alguma coisa eu penso o que Ernesto acharia daquilo, não penso o que Fidel ou minha mulher achariam, mas sim o que Ernesto pensaria no meu lugar." ele ainda pensava como se o amigo ainda estivesse presente, mesmo tendo se passado mais de 30 anos de seu assassinato.
É muito bonito ver uma amizade com essa intensidade, ainda mais nesse mundo onde as pessoas buscam na grande maioria das vezes apenas relações superficiais, um mundo carente de profundidade.
Por isso pessoas como Alberto e como o Che, e a amizade entre eles, me são tão inspiradoras. Eles nos mostram um caminho possível, um caminho de uma vida não só intensa, mas principalmente, com profundidade e sentido. É uma grande lição para toda uma geração tão acomodada e indiferente como a nossa.
Enfim, obrigado Alberto pelo exemplo!
E encerro aqui com as palavras do diretor Walter Salles: "Perdemos ao mesmo tempo um grande amigo e um ponto de referência. Que triste notícia, e que sensação de vazio para todos nós que tivemos o grande privilégio de conhecer Alberto Granado. Era um homem luminoso, que viveu de forma plena e coerente, um militante que conhecia o valor da amizade e da solidariedade como poucos. Alberto Granado era uma pessoa apaixonante, e por isso, inesquecível. Nesse momento, gostaríamos de enviar um abraço carinhoso para sua esposa Delia e para toda sua família, que também é nossa. Até logo Mial, e que siga viagem com o Fuser em "La Poderosa"!!!”
E ele com certeza seguirá!
PS: No vídeo tem a entrevista de Alberto dos extras de "Diários de Motocicleta" e algumas cenas excluídas do filme. Inspirador! ;)
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